Olho para ti na rua em frente a tua casa. Estás pacificamente sentada no sofá de couro preto que eu aprendi a apreciar. O lume arde na lareira de mármore branco à tua frente. Tens nas mãos um livro que lês com toda a atenção. As tuas mãos acariciam as páginas delicadas e a letra rude de Eça de Queiroz. Nem sei porque ainda lês tais obras. Esse tempo já passou.
É mais uma das coisas que te torna única, incomum. Música suave desliza das colunas embrulhando-te num estado de quase meditação. Tento identificá-la. Quero reproduzir aquela atmosfera austera e solene.
Levantas-te calma e graciosamente. Como uma bailarina, andas pé ante pé silenciosamente. Aproximas-te da janela, olhas para mim com os teus serenos olhos castanhos e corres as cortinas. Vejo o teu vulto afastar-se de mim, como todas as noites. Acendes a luz do teu quarto, deitas-te e apagas a luz. Eu viro-me e caminho pelo mesmo trajecto por onde vim, de volta a casa. Isto apesar de a minha casa ser, na verdade, em frente à tua.
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