Cortas-te o cabelo. Pela calada. Apareceste aí de manhã uma pessoa bem diferente.
Ainda tens o brinco da Vera na tua orelha esquerda. Virado ao contrário, é claro, porque tu não gostas de brincos com “bolinhas”.
Tens um sinal no lábio inferior, tens pontos negros no nariz mas não se notam, tens uma cicatriz perto do olho esquerdo e outra na sobrancelha direita, tens um sorriso que encandeia e um ar um tanto ou quanto alucinado.
Tens um certo encanto em tudo o que fazes, “your special kind of magic”. Um homem como tu devia ser mais selectivo com as raparigas, escolhê-las a dedo. Podias ter todas elas, não duvides. Até sinto uma pontada de orgulho ao chamar-te de Shaker.
Pareces, por vezes, medir os meus movimentos rigorosamente mas não só os meus. Os delas também, da Sara, da Vera, das miúdas que pairam na tua vida. Não te vejo daqui mas sinto o teu olhar.
És o “Menino Gloss”, aquele que nunca foi domesticado, aquele que não larga a sua lista por nada. Aquele que se diverte por mim, aquele que tem que ganhar juízo mais cedo ou mais tarde.
És tão parecido comigo. Só que tu tens mais que idade para saber ser decente e saber o que fazes. Não te vou dar um sermão. Na verdade invejo-te porque tu podes ter uma lista e eu não. Preconceitos sociais, bem sabes.
Nem sei que mais te dizer. Assim que pousar a caneta e olhar para ti vou-me lembrar de milhares de coisas para escrever. Por isso, pegarei na caneta novamente e ficarei, estática, a olhar para o papel sem saber como pôr por palavras tudo o que te queria dizer.
Contudo, és apenas o Shaker, certo?
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