O sol brilhava no canto
dos seus olhos. As estrelas eram, para ela, sempre comuns. A sua luz
abafava-as. Ela era uma força da natureza. Nunca se deixava parar
(parar é morrer), nunca se deixava vencer e nunca deitaria uma
lágrima enquanto o mundo estivesse acordado. Mas ela sofria. Lutava
com a dor que ninguém mais conhecia, lutava com o oceano que a
rodeava enquanto ela era uma ilha e fazia tudo, queria ser tudo e,
com ela, levava tudo, destruía tudo.
Ele chegou valsando. A
sua vida era maior que a dela, a sua luz mais brilhante. Quando ele
andava, mostrava-se para ela e no canto dos olhos da pequena o sol
transformava-se no negro dele. A sua dor foi por ele apaziguada,
felicidade foi semeada para crescer. Deitados ela viu o seu olhar e
por aquela centelha de amor que neles cintilava se deixou apaixonar.
Largou a sua luz, deixou-a ir viver noutro alguém e sem ele jamais
soube viver, respirar até. Sentia-se tão confortável enroscada nos
seus braços e sob o seu conselho, que não mais partiu. Ele partiu,
foi e voltou, milhentas vezes... Ele enganou-a, mentiu-lhe e puxou-a
mas ela sempre voltava, ela nunca se incomodava. Aquela centelha de
amor ainda vivia no seu olhar e ele ainda era o sol no canto dos
olhos dela, ele ainda a fazia sorrir, ainda a deixava a sonhar, nas
provas da sua alegria. E isso era-lhe suficiente. A sua vida era tão
fácil assim, encostada a ele, ao seu guia. Ele deixava-a ser apenas
aquilo que ele queria que ela fosse e assim aprendeu a amá-la depois
de todos os erros, depois de todas as falhas. Era duro com os erros
dela mas compreensivo, sempre, com os que ele próprio cometia.
Quando ela, sentia a sua força voltar, quando ele errava, só lhe
restava levantar a voz, inchar e fingir que não ficava, a cada
segundo, mais difícil de fazer passar as palavras por entre as
lágrimas escondidas. Um abraço, o mundo parava, as lágrimas
venciam e ele também. Ela não regressa ao assunto, ele esquece...
Ela carrega a sua dor
novamente. Ele já não a aniquila, só a alimenta. Ajuda-a a
sobreviver e a sua mágoa fica mais e mais forte com cada palavra
dura que ele lhe dirige, com cada pedido que ela não consegue negar.
A desconfiança rói-a de dentro para for a, o ciúme é-lhe já
inato quando antes nem era parte dela. A mentira torna-se pesada
demais e nada poderá voltar a ser o que era. E agora? O cristal foi
quebrado, já nada é como um dia foi, quando passavam noites só a
falar, quando o desejo era tanto que deixavam o mundo à espera só
por mais um toque, só por mais um pouco de amor, mais um pouco de
carinho. Agora, nada os sustenta a não ser a teimosia de parte a
parte de se manterem juntos, nem que seja para provar ao mundo que
estavam enganados.
Ela continua a levar
com ela a mala e a dor, ele continua a deixá-la carregar tudo
sozinha.
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