quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Trevas

“A vida é feita deste ou daquele pormenor”, pensava enquanto na sua casa fria, escura e húmida punha a mesa para o jantar. “Ele é um morto-vivo que já não me pretence”, repetia ela vezes sem conta para o ar. Falava dele como quem fala para uma confidente e o seu confidente era a negra escuridão que avançava sobre ela e a rodeava mesmo quando o sol brilhava. Contava histórias, repetia o que, naquela noite, ele lhe tinha prometido e reflectia rodeada pelas sombras na parede. Relembrava o seu toque, revivia o seu fogo e na eterna noite que a escondia e protegia ela admitia, “apaixonei-me por ele”.
Por trás do seu véu, por trás dos seus olhos de gelo, algo palpitava e tentava viver. Uma réstia do que ela tinha um dia sido, aquela alma inocente que antes a iluminava. Reduzida, perdida a luz, arrancada do seu âmago e espezinhada.
“Nada será como foi e nada foi como amanhã será” dizia porque ele o dizia, o sussurava ao seu ouvido quando ela morria nos seus braços e lhe confessava que não queria viver. E aquelas palavras davam-lhe esperança, força para enfrentar mais um dia e lutar . Mas todos os dias eram uma interminável luta e na escuridão ela não o via mais, não via o seu sorriso, os seus olhos, não via a luz ao fundo do túnel. Via negro, tudo negro em seu redor e nada mais.
- Será que vale a pena lutar outra vez?
As trevas são como areias movediças, nunca conseguimos sair de lá sozinhos, só nos enterramos mais. Ele não estava lá para a tirar das trevas e ela continuava a afundar-se. O telefone não tocava, a campainha também não. As suas lágrimas caiam, em silêncio, na madeira fria e nada a faria regressar.

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