terça-feira, janeiro 06, 2009

Canção

E com uma canção vulgar deixaram-me para chafurdar na minha tristeza. Quanto mais me tento afogar pior é, mais viva fico, mais dor sinto só por não conseguir manter a cabeça debaixo de água. E a canção segue, continua a tocar, nota após nota, sem respeito por mim. Afinal é apenas uma canção, uma faixa num CD, 3 minutos de notas, vozes e batidas coordenadas para formar o que é agora a minha tortura. Palavra após palavra cantada numa voz suave, memórias correm, questões reacendem-se no fundo da minha mente. Fui, acabou e simplesmente, como se nada fosse, deixou d ser triste e passou a ser a causa do desabamento de todo o meu mundo. Pois nada mais foi dito sobre tais assuntos. Mas hoje voltei a ouvir a canção e tudo voltou a ser cinzento. Só que ele não está aqui para sentir o frio chegar e tremer comigo sob a brisa gélida. Não está aqui para parar o meu apocalipse. Assim, sozinha, o meu mundo arde e o fogo deixa um rasto de cinza negra sobre a terra antes verde. O céu azul cobre-se agora de espessas, opacas nuvens pretas de fumo. O meu mundo morrerá. A canção continua a tocar, a voz sem rosto continua a cantar a sua dor e a minha silhueta voa sem asas em direcção ao chão.

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