quarta-feira, janeiro 02, 2008
Apocalipse
Quando tudo acabar, quando o mundo terminar sem aviso prévio, estarás lá? Quando não existir esperança para ninguém, novos, velhos, ainda não nascidos nem planeados, já mortos e esquecidos, estarás lá? Nesse inferno terreno, nesse apocalipse que nada tem haver com vontade divina. Quererás sequer estar lá ou preferirás enterrar-te na areia e esperar lá pela morte como milhões de covardes teus semelhantes? Poucos são os que atravessam o fogo sem medo nem temor, que se entregam por completo nas mãos do destino, confiando plenamente num plano superior, num desígnio para cada uma das infinitas almas que habitam este mundo e o outro. Não existe nenhum desígnio superior e o destino é coisa de contos de fadas. Tendo, então, isto em atenção talvez os corajosos sejam na verdade tolos e os covardes corajosos. Mas todos precisamos de algo em que acreditar, até vós, os covardes deste mundo, acreditam em algo. No amor, talvez, essa “coisa” inexistente feita de fumos invisíveis e espelhos ausentes. Verdadeiro conto de fadas esse. Mais real que a vida sendo apesar de tudo fantasia. Covardes como tu acreditam nisso. Gostam de pensar que há alguém que vos amará acima da sua própria sublime e efémera existência, que daria a já referida existência só para vos poupar a qualquer dor, física ou de qualquer outro tipo. Sonham acordados. Ao menos os corajosos, sabem que nada mais existe para além do que vemos e sentimos na pele. Por isso, sim, são corajosos. Porque enfrentam o mundo sem quaisquer ajudas, sem quaisquer ilusões. Não se ligam a ninguém porque na verdade não precisam disso. Não precisam de apoio, de um ombro amigo quando as coisas correm mal, de nada nem de ninguém. Porquê perguntas tu? Que é a vida sem amor, sem amizade, sem sentido de solidariedade e de camaradagem? Para nós, pequenos e frágeis animais de rebanho viver sozinho talvez seja o pior castigo, o extremo cilício psicológico. Precisamos de alguém para imitar e admirar, alguém que nos ajude a levantar em vez de fazer um grama de esforço para nos erguermos sozinhos. Nunca ninguém conseguirá dizer que tudo o que é, que tudo o que tem se deve apenas e somente a si próprio pois precisamos de pessoas, senão para ajudar a construir têm que nos ajudar a aguentar e por vezes até a destruir. O apocalipse aproxima-se, a cada dia mais perto, mais ameaçador e ninguém se importa, ninguém tenta contrariar a tendência, ninguém tenta cortar as asas ao comportamento auto-sabotador que cimentámos no nosso dia-a-dia. Ninguém tem o mínimo de coragem para tentar fazer algo quanto a isso. A vida corre-lhes bem, não estão para se preocupar mais. Passam a vida preocupados, a pensar no seu próprio umbigo nem têm tempo para olhar para mais nada. Bastava olhar em volta para ver o que se passa. Nada está certo, nada.
Sem comentários:
Enviar um comentário